28 de julho de 2009


Uma vez, quando era ainda bem pequena, me perguntaram o que eu seria quando virasse gente grande. De cara eu não soube responder e enfim perguntei pra minha mãe o que eu deveria ser. Ela disse que eu tinha que fazer algo que eu gostasse, que me fizesse ter realização tanto financeira quanto profissional. Na hora levei um susto e percebi que ela não havia entendido a pergunta. Deixei pra lá, crendo que o tempo me moldaria e um dia quando eu fosse gente grande eu saberia dizer o que me tornei, mas não queria me limitar a uma idéia fechada de uma adulta feliz e realizada. Eu queria bem mais que isso, mas ainda não sabia ao certo o que queria.
Hoje, vejam que coisa, cresci bastante, não o suficiente, verdade seja dita. Mas não sou mais tão pequena e até tenho algumas ideias formuladas, a maioria delas por moldar eu admito, mas se alguém me perguntar hoje o que eu quero ser quando for gente grande, eu vou saber dizer. Eu responderia, sem pensar duas vezes:
- Quero ser desse jeito aqui mesmo. Quero ter o mesmo sorriso e gostar das mesmas pessoas. Quero continuar sendo a pessoa mais romântica que conheço e espero de coração que eu continue assim tão insuportável e determinada quando o assunto é algo que eu realmente quero. Que eu possa continuar com a minha força de vontade e que eu jamais deixe que alguém interfira na minha vida dando opinião de como devo agir ou pensar. Quero continuar agindo com o coração, fazendo algumas coisas sem pensar, errando e aprendendo com os meus erros. Que eu continue tendo esse bom humor pela manhã e essa mania terrível de chorar por tudo, inclusive com finais de novelas... Quero continuar amando novelas. Tudo que eu quero ser, ser de coração, eu já sou. E é assim que quero continuar sendo.
Daí, sendo bem sincera, deixo claro pra quem quiser ouvir, eu gosto de errar. Deixa eu fazer besteira e me arrepender vez em quando.
Quebrar a cara ajuda a blindar a alma e o coração!
E bom, espero de coração que ser assim, desse meu jeito meio errado, seja o suficiente pra um dia ter o que minha mãe deseja pra mim, sucesso proficional e financeiro.

24 de julho de 2009

Sushi - Marian Keyes [2]

Depois que Lisa deixou Ashling e Clodagh na portaria, obrigou-se a voltar a pé para casa. Era algo que passara a fazer regularmente, para contrabalançar todos os jantares que Kathy a obrigava a comer. Enquanto caminhava, obrigou-se a manter a tristeza a distância. Sou fabulosa. Tenho pais fabulosos. Tenho um novo emprego fabuloso como consultora de mídia. Tenho sapatos fabulosos.
Quando dobrou a esquina de sua rua, viu que alguém da vizinhança se sentava no degrau da porta, à sua espera. O que a surpreendia era que não pegassem as chaves com Kathy e entrassem sem a menor cerimônia, pensou, irônica.
Sentiria falta de todos eles quando voltasse para Londres. Embora Francine vivesse lhe dizendo que não era o caso, pois Lisa receberia tantas visitas, que seria quase como se não tivesse chegado a ir embora.
Mas, afinal, quem estava no seu degrau? Francine? Beck? Mas a pessoa era do sexo errado para ser Francine, alta demais para ser Beck, e... Lisa sustou o passo, ao perceber que era da cor errada para ser qualquer um dos dois. Era Oliver.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou, atônita.
— Vim ver você — respondeu ele.
Ela alcançou a porta e ele se levantou com um largo sorriso branco.
— Vim reconquistar você, paixão.
— Por quê? — Ela enfiou a chave na fechadura e ele entrou atrás dela no vestíbulo. Sentia-se confusa — e estranhamente ressentida. Passara o dia inteiro se esforçando para “tocar a bola para a frente”, e ele lhe dera uma rasteira.
— Porque você é a melhor — disse ele, com toda a simplicidade. E outro sorriso ofuscante.
Ela atirou as chaves na mesa da cozinha.
— Pois chegou um pouquinho atrasado — tornou ela, irritada. — Nós acabamos de nos divorciar.
— Sabe — disse ele, pensativo —, eu me sinto uma merda com esse divórcio. Deu um nó na minha cabeça que você não faz uma idéia! Mas, enfim, não há nada que impeça a gente de se casar de novo — disse, sorrindo. E, quando ela lhe deu um olhar cuja legenda era “Seu filho-da-mãe maluco”, ele insistiu: — Estou falando sério!
Ela lhe lançou outro olhar da mesma família do primeiro, mas, de repente, seus pensamentos ficaram um pouco irrequietos e difíceis de dominar. A idéia de se casar com Oliver de novo era ridícula, mas tentadora. Extremamente tentadora — durante mais ou menos um nanossegundo. Em seguida, ela caiu na real.
E perguntou, brusca:
— Não se lembra de como era horrível? No fim, a gente discutia o tempo todo, era um inferno. Você tinha ódio de mim e do meu emprego.
— Tem razão — admitiu ele. — Mas, em parte, a culpa foi minha. Quando você desistiu de ter um bebê, eu devia ter te dado atenção. Sei que você tentou me contar, paixão, mas eu não queria saber. Foi por isso que fiquei louco da vida quando descobri que você ainda estava tomando a pílula. Mas, se tivesse te dado atenção... Enfim... E você está tão diferente, não é mais tão dura quanto era. Sinto muito, paixão — disse ele, ao ver que ela se encrespara —, mas é a verdade.
— E isso é bom?
— Claro.
Diante de sua expressão cética, ele disse, com brandura:
— Lisa, nós estamos separados há mais de um ano, e a barra ainda não aliviou para mim. Não conheci ninguém que chegasse aos seus pés.
Sua expressão era ansiosa, como que à espera do encorajamento ou aquiescência dela, mas ela não lhe deu nenhum dos dois. Toda a despreocupação que ele sentia ao chegar se esvaíra, e estava subitamente ansioso.
— A menos que você tenha conhecido alguém. Se for o caso, eu tiro meu time de campo — disse, gentil. — E desisto de tentar reconquistar você.
Com uma fisionomia inescrutável, Lisa o encarava, considerando a hipótese de lhe dar um sorrisinho maroto, do tipo talvez-sim-talvez-não. Isso daria um basta naquela situação absurda, perigosa. Do nada, porém, mudou de idéia. Jamais jogara com Oliver, por que haveria de começar agora?
— Não, Oliver, não conheci ninguém.
— Tudo bem — ele assentiu lenta e cautelosamente. — Bom, já posso parar de me roer por dentro. — Após uma pausa nervosa, continuou: — Ainda te amo. Agora que estamos mais velhos e mais maduros — deu um risinho inseguro —, acho que tem tudo para dar certo.
— Acha? — A pergunta foi feita com toda a calma.
— Acho — afirmou ele, categórico. — E, se você estiver interessada, posso me mudar para Dublin.
— Não seria necessário, vou voltar para Londres no fim da semana — murmurou ela.
— Então, Lisa — disse Oliver, com uma expressão extremamente séria —, só resta saber se você está interessada.
Seguiu-se um longo e tenso silêncio. Por fim, Lisa disse:
— Acho que sim. — De repente, sentia-se encabulada.
— Tem certeza?
— Tenho. — Deixou escapar um risinho nervoso.
— Paixão! — exclamou ele, fingindo-se indignado: — Se é assim, por que é que você está me torturando desse jeito?!
Ainda encabulada, ela confessou:
— Eu estava com medo. Eu estou com medo.
— De quê?
— De ter esperança, acho — disse ela, dando de ombros. — Não queria ter nenhuma, porque havia a hipótese de você estar agindo por impulso. Eu tinha que ter certeza da sua certeza antes mesmo de poder pensar no assunto. Porque — confessou, tímida — eu te amo.
— Então não precisa ter medo — prometeu ele.
— Quando foi que você ficou tão ajuizado? — resmungou ela.
Ele soltou uma gargalhada forte e alta, uma gargalhada tipicamente sua, e, de repente, os pensamentos de Lisa simplesmente dispararam, como cães soltos de suas coleiras.
Quanta sorte ela tinha de ganhar outra chance? A extensão integral de sua suprema boa fortuna revelou-se para ela, e ela se sentia no sétimo céu, quase imponderável de felicidade. Nem todo mundo tem uma chance dessas, compreendeu, degustando, pela primeira vez na vida, o valor do momento presente.
Vou fazer tudo diferente dessa vez, jurou de pés juntos. Os dois fariam. E, mais uma coisa, o fecho de ouro, por assim dizer: se dois casamentos entre as mesmas pessoas eram bons o bastante para Burton e Taylor, então também eram bons o bastante para ela. Incapaz de frear sua cabeça eufórica, já planejava um segundo casamento, um festival de plumas e paetês, pompa e circunstância. Nada de fugir para Las Vegas dessa vez — não, fariam tudo como mandava o figurino. Sua mãe ficaria deslumbrada. E eles chamariam a revista Hello! para fotografar a cerimônia...
Como se pudesse ler os pensamentos de Lisa, Oliver exclamou, ansioso:
— Calma, tigresa!

Retirado do livro Sushi de Marian Keyes, capítulo 65.
Ps: Só conto histórias com finais felizes. Diga-se de passagem, que final feliz... Recomendo muito o livro. Mesmo.

21 de julho de 2009

O mesmo quarto. O mesmo desejo.

Nós nos deitamos lá. Os rostos cheios de excitação e felicidade!
Olhar pra cima trazia calma, a luz apagada e todas aquelas estrelas brilhando sobre nós, como se fosse um aviso prévio de toda a perfeição que se seguiria.
Conversamos besteiras e sorrimos juntos como sempre, aquele lugar tão conhecido trazia conforto, inspirava segurança. Ali éramos nós dois a salvo do resto do mundo. Impossível me sentir mais segura, impossível estar mais segura que não nos seus braços, naquela cama, no nosso esconderijo, sob nossas estrelas.
Enfim você me deu um beijo, o primeiro. Incrível como me senti suar frio, senti as pernas tremerem, senti o lugar se mover. Que sensação!
Eu sabia que depois que aquele beijo acontecesse, todo o resto seria incrível. Sempre fomos cúmplices demais pra deixar que o medo tome conta do desejo. Medo é algo que nosso sentimento não nos permite sentir. Mais que isso, é impossível sentir medo ao seu lado, nos seus braços!
Você me puxou pra mais perto e disse o quanto esperou por aquele momento, beijou minha orelha e me fez arrepiar. Eu te segurei com força pela cintura, nunca mais deixaria que você saísse de perto de mim. Pela forma como aproximou seu corpo do meu e tocou meu rosto, você queria o mesmo que eu.
Beijou-me de um jeito único. Seu lábio macio tocando o meu levemente. Nossos rostos unidos pela boca e se movendo em sentidos diferentes. Então você parou me olhou e se levantou. Puxou-me com força e abraçou-me. Veio desabotoando minha blusa, tirando meu sutiã e olhando com os olhos de quem só quer dar amor. Tocou meus seios com calma e os beijou com toda ternura. Eu tirei sua camisa, te abracei e nós sentimos nossos corpos se tocarem e incrivelmente se encaixarem como jamais fora com outra pessoa antes. Fiquei me perguntando se alguma das várias mulheres com quem você já esteve te fez em algum momento se sentir assim... Senti ciúmes, claro que sim. Mas tratei de logo tirar isso da cabeça, pois homem nenhum antes me fez sentir algo sequer parecido e preferi acreditar que com você também era assim.
Quando voltei ao momento seus olhos ainda estavam lá, nos meus. Seu corpo tão próximo ao meu que dava pra sentir seu calor, seu desejo. Começamos a nos beijar loucamente, um beijo cheio de desejo, cheio de saudade, cheio de loucura. Nesse beijo estavam os anos que nos separaram a saudade que nos consumiu cada dia desses últimos quatro anos. Estava tão ligada ao beijo que quando percebi estávamos completamente sem roupa, então você beijou meu rosto pra em seguida descer e beijar todo o resto do meu corpo. Eu sentia arrepios, desejo e olhava pras estrelas, pro lugar, sentia a segurança e nunca em minha vida desejei tanto que um homem me fizesse mulher.
Então você entrou em mim. O espasmo de prazer que eu senti jamais conseguiria explicar, mas os seus olhos, sua face, sua voz naquele momento. Aquilo com certeza seria uma boa explicação pra o que eu senti. Para o que sentimos.
Fizemos amor pelo que pareceu o maior e mais feliz espaço de tempo da minha vida. E eu tive a certeza de que jamais me sentiria assim outra vez.
Quando você me abraçou e tocou meu rosto, quando disse que me amava, quando me fez rir com uma de suas piadas, quando me mostrou seu sorriso... Como explicar toda a felicidade que se explodiu em mim? Não há como. Mas foi incrível.
Então conversamos sobre tudo, sobre todas as coisas que nos aconteceram durante esse tempo. Foi tão gostoso ficar ouvindo sua voz me contar todas aquelas histórias. Você contou com tanto entusiasmo cada detalhe das coisas incríveis que viveu, de como queria que eu pudesse ter estado junto. Quando dei por mim o sol estava nascendo e as estrelas já não brilhavam mais, eu havia tido a conversa mais gostosa dos últimos anos e você me pedia pra não dormir, pra ficarmos acordados ali e juntos para sempre.
Eu me aproximei de você, disse que te amava e encostei minha cabeça no seu peito. Você passou as mãos pelo meu cabelo e eu acabei caindo no sono enquanto você me falava o quanto eu estava te fazendo feliz, o quanto esperou pra se sentir assim, o quanto me quis perto todos esses anos...