29 de agosto de 2009

Do começo ao fim

Eu teria sido o ar puro que você precisava e poderia ter dito as palavras que você queria ouvir. Eu seria a mais sincera ou a mais falsa das verdades, qualquer uma que lhe fizesse mais feliz. Eu teria aceitado o desconhecido, andado na escuridão. Ferido, a mim mesma... Tudo, qualquer coisa que te fizesse feliz ao meu lado. Mas não foi o suficiente... Tanto amor não era o suficiente.
Então eu deixei que você fosse e passei vários dias repetindo a mim mesma o que você acabara por revelar, ‘Não te amo’, foram essas as palavras e o que as diferiu de todo o resto é que eram as primeiras a serem sinceras.
Então você achava que eu precisava de uma desculpa para não te amar, mas desculpas para isso eu tinha tantas, você é que as procurava para poder me odiar. No fundo, onde você me esconde dos bons sentimentos, onde ninguém pode me ver dentro de você, é lá também que você guarda consigo a verdade, a verdade de saber que eu jamais menti. E você teria dito isso, teria tirado toda a minha dor, teria feito como antes e me guardado do perigo. Eu sei que você o faria se não precisasse me odiar, se não precisasse de um motivo para ter a certeza de não me amar. Certeza que você conseguiu pra si me incriminando e que cravou em mim, me decepcionando.
Então eu parti! Era isso que eu tinha de fazer, levar comigo para longe as lembranças de algo que jamais voltaria a ser...
Agora você continua respirando um ar sujo e eu estou dormindo com outra pessoa. Você continua ouvindo coisas que não quer e eu agora dedico minhas frases de amor pra alguém que viu mais que você e percebeu que é melhor encarar a verdade que viver sempre mentindo pra si mesmo...
Então ouça sua música preferida, cante ela junto com o rádio, grite aos quatro cantos de sua casa vazia o quanto você sente a minha falta, e quando alguém bater na sua porta faça silêncio, continue guardando o segredo só pra você, até que ele se desfaça, até que você não precise mais mentir.
Cante sua música, nossa música, o mais alto que puder. Um dia essa dor vai passar, a sua e a minha, toda a dor... Ela vai ceder, vai sumir.
E agora de uma vez por todas, eu e você nunca mais... Trate de dormir com as outras e construir novos sonhos. No começo é estranho, mas você vai se acostumar.
Eu o amei tanto, mas que a mim mesma e agora deixo você ir, deixo você se enganar, desde que isso te faça mais feliz. Eu só queria poder sarar a sua dor...

25 de agosto de 2009


- Nós já nos vimos antes?
- Não. Eu creio que não.
- Seu perfume, eu reconheço esse perfume. Seu sorriso, eu já vi esse sorriso. Como pode nunca termos nos visto?
- Talvez seja o álcool... você bebeu muito esta noite.
- Sim, eu bebi muito, mas lembro que o álcool nos faz esquecer das coisas e não de lembrá-las. Aliás, como você sabe que eu bebi muito?
- Eu estava lhe olhando alí, daquele canto, naquela mesa.
- E porque você estava me olhando?
- Não sei. Sua voz, eu acho. Quando você pediu uma dose, eu achei já ter ouvido essa voz e olhei para ver quem era, mas acho que me enganei. Só que ao invés de parar de olhar você, fiquei preso na forma como você movia o dedo na borda do copo e de como estava perdida em seus pensamentos olhando pro nada. Não sei, algo em você parece muito com algo que eu fui, ou quero ser, ainda não sei.
- Você tem olhos lindos, mas quero que pare de me olhar. E se não nos conhecemos, bem, não temos mais nada que falar. Tchau.
- Sabe, eu me encantei com seus sapatos amarelos e a forma como vc senta e deixa os pés unidos, como numa foto antiga.
- Você estava prestando atenção mesmo, não é? Mas sério, não estou num bom dia, é melhor você se afastar.
- É. Hum... tudo bem. Tchau!

[...]

- Desculpa, você quer mesmo que eu pare de te olhar? É que eu tento e não consigo e não sei se vou deixar você ir embora quando quiser...
- Como é? Você é louco?
- Bom, não costumo ser, mas se não conseguir parar de olhar você implicar nisso, eu tenho de admitir, enlouqueci.
- Seu cheiro é bom, seu riso é lindo e eu continuo achando que já o vi. Mas não estou num bom dia...
- Que tal você sorrir pra mim? Talvez falte isso pra que eu também te reconheça.
- Não estou num bom dia.
- Pare de dizer que não está num bom dia, eu já ouvi. Não consigo parar de te olhar mesmo assim e se você sorrir... pode ser mágico...
- Já é dia, eu preciso ir!
- Vai fugir?
- Bem, não tem nada que eu saiba fazer melhor. Tchau.

19 de agosto de 2009

O guerreiro tem de aprender.


O guerreiro caiu. Não sabe como, não entende o porquê, mas caiu.
Logo ele, que vinha andando em linha reta, de cabeça erguida, ligado ao caminho com toda a atenção que lhe é permitida. Como isso foi acontecer?
Como ele pode não ter visto aquela pequena pedra, causadora de sua queda, no meio do caminho? Logo ele, que tinha estudado o mapa com cuidado e já vinha desviando de coisas bem maiores, não viu aquela pedra? Talvez por ser tão pequena, ele não a tenha notado.
O fato é que ela estava lá, no meio do caminho, sabe-se lá porque motivo. E ele sem perceber tropeçara nela e caíra.
Lá estava ele, deitado no chão em meio a toda aquela poeira do caminho e sem ter forças para levantar. Era como se seu corpo não quisesse o obedecer e ele sabia o porquê. Seu corpo e sua mente estavam com raiva, magoados por ele ter se deixado derrubar por algo tão pequeno. Ele não podia ter sido assim tão distraído.
Ficou ali caído pelo que pareceram vidas, até que se recompôs e decidiu que precisava se levantar. Foi erguendo-se vagarosamente, com toda a calma, para não cair de novo e analisando com cuidado o caminho que vinha a sua frente, estava decidido que aquilo jamais voltaria a acontecer, pedra pequena ou grande nenhuma voltaria a fazê-lo cair.
Quando por fim estava de pé, parou e pensou! Ele estava olhando para o lugar errado, estava ligado em olhar para cima e esqueceu-se de verificar a imensidão do seu caminho olhando para baixo. Aquele fora seu erro, manteve sua mente e sua alma agarrados ao instrumento errado. Se tivesse por um momento olhado para baixo, teria visto aquela pequena pedra e jamais teria caído.
Naquele dia o guerreiro viveu uma de suas maiores lições.
Foi quando ficou de pé e olhou adiante que sentiu seu coração bater forte e pôde olhar para baixo, avistando que dali até um pouco a frente, nada haveria que pudesse atrapalhar sua caminhada. Foi ao levantar-se que descobriu que olhar ao redor antes de seguir adiante, é talvez a forma mais fácil de chegar à conquista.
O guerreiro agora estava mais forte, mais atencioso e aprendera algo que muitos tolos não sabiam, um detalhe faz toda a diferença.
Era hora de continuar. O guerreiro abriu um sorriso, tomou um gole de água, olhou ao redor, levantou a cabeça e seguiu em frente!